Economia

Banco de Edir Macedo repassa carteira inadimplente a fundos e oculta perdas

Banco vendeu precatórios que estão longe de serem pagos à holding de Edir Macedo – Imagem: Divulgação/IURD

O banco Digimais, controlado por uma holding ligada ao bispo Edir Macedo, repassou carteiras de financiamento com alta inadimplência para fundos e outras estruturas, em operações que retiraram perdas relevantes de suas demonstrações financeiras.

Banco Digimais transferiu carteiras de crédito problemáticas para fundos de investimento e reduziu o tamanho das perdas exibidas no balanço. Documentos analisados em auditorias e por especialistas indicam que a manobra tirou das demonstrações financeiras créditos vencidos de centenas de milhões de reais.

Operações permitiram que o banco registrasse lucro de R$ 31 milhões no fim de 2025. As transferências teriam evitado a contabilização de pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos, que diminuiriam o resultado informado.

Auditores apontaram dificuldade de verificação em parte relevante dos investimentos em fundos. O banco mantinha saldo de R$ 3 bilhões aplicado em fundos que não puderam ser auditados por falta de acesso a documentos que comprovassem as demonstrações financeiras, valor equivalente a cerca de 75% do total investido pela instituição em fundos.

Especialistas citaram risco regulatório e alertas sobre negócios em que o banco aparece dos dois lados da operação. Parte das estruturas tem o próprio Digimais como cotista, prática conhecida no mercado como operação “Zé com Zé”.

Como eram as carteiras repassadas

Financiamento de veículos foi o principal negócio do Digimais e chegou a representar 94% da carteira em 2021. Vendedores relataram que o banco financiava carros velhos e baratos para clientes já endividados, com juros altos.

Em dezembro de 2025, o Digimais aparecia em quarto lugar em ranking do Banco Central de juros no crédito. A taxa citada na lista era de 2,97% ao mês e 41,07% ao ano.

Após as cessões para fundos, o financiamento de veículos caiu para 52% da carteira de crédito do banco. O percentual consta em balanços entregues ao Banco Central.

Um dos fundos que compraram carteira veicular, o Tabor, tinha inadimplência de 59,9% em abril de 2026. O fundo registrava R$ 960 milhões em carteiras de crédito, com R$ 575 milhões em atraso, incluindo mais de R$ 200 milhões de parcelas vencidas há até dois anos.

O Digimais declarou R$ 366 milhões em créditos vencidos no financiamento de veículos em dezembro de 2025. No mesmo período, apenas o fundo Tabor já registrava R$ 479 milhões em inadimplência, perdas que não apareciam discriminadas nas demonstrações do banco.

Negócios com holding e empresa de pastor

A holding controladora comprou R$ 741 milhões de cotas que o Digimais tinha em um fundo chamado Hermon. O fundo comprou o direito de receber uma indenização judicial ligada a herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, encampada em 1940, e estima ter R$ 2,2 bilhões a receber, em disputa que pode levar anos.

Em outra operação, o Digimais cedeu a uma empresa de um pastor uma carteira que incluía contrato rescindido após a venda de um carro roubado. Clientes relataram que, mesmo com decisões judiciais suspendendo cobranças, as cobranças continuaram e passaram a ser feitas pela Hatikvah Participações.

A Hatikvah Participações tem como sócio o empresário e pastor Tiago Gouvêa, da Alive Church, que atua com crédito consignado. A empresa recebeu os direitos creditórios de uma carteira de financiamentos em 30 de dezembro de 2025, comprada por R$ 255 milhões, segundo contrato.

Em troca, a Hatikvah cedeu participação em um Fundo de Investimentos em Participações (FIP) ligado a empreendimentos imobiliários. O Digimais teria recebido inicialmente 35% do FIP Hatikvah e depois passou a deter 97% do fundo, que declara aportes de R$ 711 milhões.

O empresário disse que ofereceu ao Digimais uma operação de consignados com servidores de municípios onde já tem contrato. A apuração aponta que o banco não teria depositado cerca de R$ 30 milhões prometidos em um negócio envolvendo venda de imóveis por meio de consignado.

Venda do banco está em negociação
O Digimais está à venda há mais de um ano e vem sendo negociado com o BTG Pactual. O BTG informou ter assinado documentos vinculantes para uma possível aquisição, ainda sujeita a condições e a um processo competitivo.

Segundo o BTG, a operação deve ocorrer por meio de leilão e depende de mecanismos de suporte financeiro. O banco citou a participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como uma das possibilidades.

*Com informações de Estadão Conteúdo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo